2 de out de 2010

Clarissas Bem - Aventuradas




Nas etapas que fazem parte do processo de Canonização de uma santa ou de um santo, aquela que antecede a declaração da santidade é chamada Beatificação. Na Ordem de Santa Clara, o elenco das Bem-aventuradas (ou das Clarissas Beatas) enumera uma plêiade de estrelas luminosas. Essas Bem-aventuradas apontam para nós, que seguimos como elas o mesmo caminho clariano de bem-aventurança, diversos modos de trilhar esse caminho e irradiar o Evangelho. Elas quiseram viver com um único fim “amar e servir o Senhor!” Destacaram-se por uma intensa e profunda experiência mística e por terem continuado a despertar o desejo de Deus naqueles que têm a possibilidade de penetrar ao menos um pouco o mistério de suas existências, marcadas pela radicalidade de ideais, de entrega e de abandono ao Senhor. Apresentamos as Clarissas bem-aventuradas em breves biografias seguindo cada século que sucedeu a vida de Santa Clara. Chamamos a atenção para o fato de que não existe nenhuma clarissa beatificada que pertença aos séculos XIX e XX, atualmente. Recentemente vimos com alegria três Clarissas Bem-aventuradas atingirem o processo final, ou seja, a Canonização: Santa Eustóquia de Messina (em 1988) e Santa Inês de Praga (em 1989) e Santa Camila Varani (2010). Rezemos para que as Bem-aventuradas Clarissas, esta nova plêiade de estrelas seja colocada em breve na honra máxima dos altares, para glória de Deus e estímulo de todos que crêem, e peçamos a intecessão delas junto do Senhor por nossas necessidades.

3 de set de 2010

Um caminho de bem-aventurança



Um caminho de bem-aventurança

“Como outra Raquel, nunca percas de vista o teu ponto de partida. Conserva o que tens, continua fazendo o que fazes agora. Não te detenhas, antes avança com confiança e alegria, com passo ligeiro e pé seguro, pelo caminho da bem-aventurança que te espera”
Com estas expressões de ânimo e estímulo, Santa Clara exortou, numa de suas cartas, a Clarissa tcheca, Santa Inês de Praga. E estas palavras ressoaram também no coração de todas as suas filhas espirituais, no decorrer dos séculos.
Uma fileira interminável de Clarissas respondeu e responde ao apelo de Clara de Assis, “avançando com passo ligeiro e pé seguro no caminho da bem-aventurança”, da santidade. É um apelo do próprio Deus, que nos convida ser santas, como Ele é santo. Jesus disse: “Sejam perfeitos, como o Pai Celeste é perfeito!”
A história particular de cada mosteiro guarda a lembrança de irmãs santas, que passaram sua vida na simplicidade, na obscuridade, na fidelidade a Deus e à Igreja. Deixaram o perfume de sua vida penetrada de Deus, de suas santas virtudes, no silêncio e no anonimato. Algumas, muito poucas, por desígnio de Deus, tiveram seus nomes conhecidos e reconhecidos como Bem-aventuradas e Santas, pela Igreja.
Além da própria Santa Clara, a Ordem por ela fundada, conta com nove Santas canonizadas e perto de cem Bem-aventuradas. Isso, sem falar de um grande número de Veneráveis e de Servas de Deus, cujos Processos de Canonização estão em andamento na Cúria Romana.
Entre as Santas Clarissas estão Santa Inês de Assis, irmã de Santa Clara e também Santa Inês de Praga, princesa da Boêmia, a quem Clara escreveu algumas cartas, plenas de espiritualidade e de vida! Podemos citar também a rainha santa de Portugal, Santa Isabel, cuja mãe, a Bem-aventurada Constância de Aragão e da Sicília, foi também Clarissa.
Entre as Clarissas Bem-aventuradas, podemos citar a própria mãe de Santa Clara, Hortolana, sua irmã Beatriz, suas primas Balvina e Amata, a amiga Pacífica e várias outras de suas companheiras em São Damião. Outras se sucederam depois, em inúmeros mosteiros: Isabel da França, Helena Enselmini, Salomé de Cracóvia, Iolanda da Hungria, Matia de Matélica, Iluminata Bembo, Jacoba Policino,  Clara de Rímini, Madalena Martinengo, Ângela Astorch, Josefina Leroux, e muitas outras. Muitas delas, inclusive, foram mártires.

Filipa Mareri




Bem - Aventurada Filipa Mareri de Borgo Sansepolcro - Rieti (+1236)
16 de Fevereiro


Filipa Mareri nasceu da nobre família dos Mareri, no fim do século XII, no castelo de sua família, na Província de Rieti, Itália. Jovem ainda, foi inspirada por São Francisco, à vida de perfeição evangélica, entre os anos de 1221 a 1225, quando ele esteve em Rieti. Tomou a resolução de consagrar-se a Deus, com tal determinação, que nem a pressão dos parentes e nem a ameaça do irmão Taraso, nem mesmo as insistências dos pretendentes, conseguiram dissuadi-la desse projeto. Impossibilitada de levar uma vida de oração e de ascese em família, semelhante a Clara de Assis, fugiu da casa paterna, junto com algumas servas, e refugiou-se em uma gruta, nas proximidades de Mareri, atualmente denominada Gruta de Santa Filipa, e ali permaneceu até 1228, quando os dois irmãos Taraso e Gentile, com documento datado de 18 de setembro de 1228, lhe doaram o castelo que lhes pertencia, e que tinha anexo uma igreja dedicada a São Pedro de Nolito, numa localidade atualmente conhecida como Borgo São Pedro, para onde Felipa se transferiu com suas companheiras. Vestiu uma veste rude e ali começou a organizar a vida claustral, segundo o programa de vida traçado por Francisco para as Irmãs de São Damião. Neste Mosteiro professou a Regra de Santa Clara, sob a orientação do Bem-aventurado Frei Rogério de Todi, que havida sido designado pelo próprio São Francisco para o cuidado das Clarissas de São Damião. Logo outras jovens, desejosas de viver a mesma vida, atraídas pela amável maneira de ser e de tratar de Felipa, seguiram o mesmo ideal. Assim ela arrastava a juventude daquela redondeza à vivência evangélica. Sob sua orientação, o Mosteiro tornou-se uma escola de santidade. E Felipa, como fundadora, uma mestra de vida espiritual. Embora tivesse todos os dotes para preencher o cargo de Abadessa, preferiu sempre portar-se como a menor de todas e serva de suas irmãs. A principal ocupação daquela comunidade era o culto e o louvor a Deus, a vida litúrgica e a leitura da Sagrada Escritura. Junto às atividades espirituais, dedicavam-se ao trabalho, ao serviço dos pobres e ao apostolado social, com o atendimento médico, dispensado gratuitamente, também às comunidades vizinhas. Com a Palavra dispensada sabiamente, e com a ação caritativa Felipa contribuiu para fazer reviver algumas páginas do Evangelho num mundo que as havia esquecido. A exemplo de São Francisco, dedicou a mais alta estima à virtude da pobreza. Dizia sempre às irmãs que não se preocupassem com o dia seguinte, pois o Senhor proveria tudo.  Foi-lhe revelado o dia de sua morte, causada por uma doença repentina. Despediu-se de suas irmãs, exortando-as a viver fielmente o que haviam prometido. Faleceu no dia 16 de fevereiro de 1236, após ter recebido os sacramentos das mãos de Frei Rogério de Todi, seu diretor espiritual. Logo começaram as peregrinações ao seu túmulo; registraram-se graças e favores celestes, obtidos por seu intermédio. Felipa é tida na Igreja como Bem-aventurada, mas na região de Rieti há tradição fundamentada de que foi canonizada, e assim é reconhecida pelo povo. O título de Santa aparece pela primeira vez numa Bula de Inocêncio IV redigida em 1247, passados apenas dez anos de seu trânsito. Filipa Mareri seria portanto a primeira Santa da Ordem de Santa Clara, ou das Clarissas. Clara ainda estava viva quando teve a alegria de saber do trânsito de sua filha espiritual Felipa morta em fama de santidade. Passados seculos de sua morte, a devoção por ela mostra-se mais viva do que nunca, não só em sua terra natal, mas também além dos Alpes e até além do oceano, para onde emigraram seus devotos, forçados pela necessidade de trabalho. Em suas necessidades e sofrimentos, a ela recorrem com fé. E ainda hoje, quando retornam à Pátria, visitam seu túmulo para entoar-lhe seus cantos de agradecimento. As Clarissas que tiveram sua fundação marcada pela história de Felipa, durante as perseguições religiosas do século XIX e XX, estabeleceram-se em Rieti em novo convento, e adotaram um sistema de semiclausura, dedicando-se à educação de meninas e ao atendimento de idosos. A canonização de Felipa está em estudo pela Igreja, e aguarda o reconheceimento oficial. Sua festa é celebrada no dia 13 de fevereiro.

Ortolona Favarone de Assis



Ortolona Favarone de Assis (+1237) -  2 de Janeiro


Até recentemente os biógrafos insistiam em afirmar que a mãe de nossa fundadora, Santa Clara,  Hortolana, provinha da família de Fiumi, nobres senhores de Sterpeto. Trata-se, como afirma Arnaldo Fortini (Vita Nuova de San Francesco) em seus sérios estudos históricos, de nomes e de genealogias fantásticas fornecidas por historiadores do século XVI,XVII, XVIII, como Tossignano e Wadding e Salvador Vitali. Esses nomes não merecem nenhuma credibilidade e foram inventados para dar importância a nomes e a famílias que queriam fazer derivar sua descendência da família de Santa Clara. Entretanto, certamente Hortolana descendia de uma família nobre. As atuais pesquisas históricas ainda não podem afirmar nada de concreto. Casada com Favarone, dos condes de Offreduccio. O avô de seu esposo foi Bernardo, filho de Offredo. Família riquíssima, nobre e guerreira, possuidora de grandes propriedades e de vários castelos nas proximidades de Assis. Favarone tinha quatro irmãos: Monaldo, Paulo, Ugolino e Scipione (pai de Frei Rufino, que ingressou na Ordem Franciscana), sendo ele o último. Possivelmente depois de casada e antes de ter sua primeira filha, Clara, Hortolana visitou a Terra Santa, acompanhada de Pacífica de Guelfuccio, que posteriormente seria companheira de Clara nos inícios da Ordem das Damas Pobres. É preciso ter presente que a peregrinação à Terra Santa não pode ter tido lugar senão no ano de 1192, porque somente neste ano Saladino, com o contrato de paz que dava fim à III Cruzada, consentia que os cristãos pudessem ir a Jerusalém. Já  no ano seguinte esta possibilidade era retirada aos cristãos por parte dos muçulmanos. Era costume dos cidadãos de Assis empreender peregrinações ao Santuário de São Miguel de Gargano, em Roma, a São Tiago de Compostela, na Espanha, e Veneza, Igreja de São Marcos. A Legenda de Santa Clara e algumas testemunhas no Processo falam que Hortolana empreendeu também peregrinações ao Santuário do Monte Gargano e à tumba dos Apóstolos em Roma (cf. ProcC I,4). Hortolana  teve três filhas: Clara, Catarina (Inês) e Beatriz. É lendário e absolutamente não histórico falar de outros dois filhos de Hortolana e Favarone, precedendo estas três  (Penenda e Bonone). Hortolana cultivou sempre uma vida dedicada à caridade e à prática da piedade cristã, e nestes costumes educou suas filhas, residindo no palácio da praça de São Rufino, em Assis, pertencente à nobreza dos Offreduccio, exceto breves períodos de verão que passava nos castelos dos arredores de Assis, ou também quando a família teve de refugiar-se em Perusa, na guerra entre esta cidade e Assis. Ao aproximar-se o seu primeiro parto orando diante do Crucificado, recomendava-se fervorosamente ao Senhor, pedindo o bom êxito para tão difícil momento. Narra a Legenda de Santa Clara que ao concluir a oração, ouviu do Senhor estas consoladoras palavras: “Não temas, senhora, pois darás à luz uma luz que iluminar  o mundo inteiro com seu brilho”. Em razão disso, Hortolana teria dado à sua primogênita o nome de Clara, Chiara (pronuncia-se Kiara) (1193). Em 1197 teria Hortolana dado à luz sua segunda filha, Catarina, que depois recebeu de Francisco o nome de Inês ao ingressar na Ordem; ela é conhecida como Santa Inês de Assis. Beatriz é a filha mais nova de Hortolana e também ingressou na Ordem e foi proclamada Bem-aventurada. Nos anos de 1203-1205, a família de Clara foi obrigada a refugiar-se em Perúgia, pois, tendo participado da guerra de Perúgia os nobres Ofreduccio enfileiraram-se, como a maioria dos feudatários, ao lado dos nobres de Perúgia. Depois disso, retornaram a Assis. Hortolana acompanhou, como mãe dedicada e com sua oração fiel, os incríveis acontecimentos relacionados à vocação das duas primeiras filhas Clara e Catarina em março-abril de 1211, quando deixaram o palácio de Assis. Viveu ainda uns quinze ou mais anos em casa, pois parece supor-se que não teria ingressado em São Damião antes de Beatriz. Se realmente Hortolana ingressou ao mesmo tempo que Beatriz, teria vivido uns nove a dez anos de consagração a Deus. Os biógrafos afirmam que Hortolana ingressou no Mosteiro de São Damião depois da morte do marido, mas nenhum dado considerável se tem para estabelecer uma data. Favarone, segundo suposições, teria morrido na mesma época de São Francisco, em 1226. Mas há outra suposição que coloca sua morte como tendo ocorrido antes do ingresso de Clara em São Damião. Há  em Assis um documento de 1228 no qual aparece um elenco de servos punidos que estavam a serviço de um Favarone; esse Favarone bem pode ser o pai de Clara. É quase impossível pensar em outras pessoas com o mesmo nome, habitantes do mesmo condado ou provenientes de castelos vizinhos, com a riqueza e a potência da família de Clara que possuía muitos servos, como por exemplo João de Ventura, que depõe como testemunha no Processo de Canonização de Santa Clara. Enquanto se sabe com certeza que Beatriz ingressou em São Damião em 1229, de Hortolana apenas se diz que “veio depois para a mesma religião que sua santa filha e bem-aventurada Clara, e nela viveu com as outras Irmãs com muita humildade; e na mesma, ornada por santas e religiosas obras, passou desta vida” (cf. ProcC I,4). No Mosteiro de São Damião, Deus agraciou Hortolana com o dom de realizar milagres de curas. Clara mesma enviava sua mãe ao parlatório para que traçasse sobre os doentes o sinal da cruz, e estes ficavam curados. Uma aplicava à outra os méritos da fé miraculosa que realizava a cura dos doentes. Hortolana já  teria morrido em 1238, pois seu nome não aparece no elenco das Irmãs que estavam em São Damião nesta data. Porém não se pode precisar historicamente nada mais além disso. Sua festa é celebrada no dia 02 de janeiro.